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segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Na trilha do Engenho (mais uma vez)

Recebemos milhares de cartas e mensagens eletrônicas de fãs que nos pedem dicas de como fazer uma boa trilha. Respondemos na medida do possível, e para ajudar muita gente, vamos oferecer agora um manual para levar criança em aventuras como as nossas. Esta é uma das dúvidas mais frequentes, e como a trilha que fizemos no domingo não é inédita (leia o relato aqui), vamos fazer a felicidade geral da nação.
Trilhas, expedições, travessias e peregrinações são programas perfeitos para levar os pequenos. O contato com a natureza, o convívio em família e a atividade física são apenas alguns argumentos de pedagogos, psicólogos e educadores. Esses especialistas, no entanto, ignoram aspectos que não podem ser ignorados antes de submeter seus filhos a riscos de vida, traumas variados e extenuantes rotinas de exercício físico...


Uma boa trilha começa no dia anterior, com a preparação das mochilas e demais apetrechos. Planejamento é fundamental. Os pais devem separar mantimentos, líquidos, equipamentos de segurança e kits de primeiros socorros. Dardos de tranquilizante também podem ser úteis. Tudo deve estar igualmente dividido em mochilas, tanto para adultos quanto para crianças. Cada participante deve levar a sua, independente da idade, tamanho ou peso da mochila. Conselho útil para famílias com crianças saltitantes...


Que alimentos levar? Sanduíches sem maionese (e sem salmonela), frutas (sem caroço) e biscoitos diversos. Não levar balas nem chocolate. As primeiras são difíceis de resgatar em gargantinhas estreitas, e o segundo atua como anfetamina natural, gerando uma reação em cadeia no organismo infantil, disparando energia infinita e impossível de ser contida.
Líquidos não podem ser esquecidos. São recomendados litros de refrigerante, por ajudar em divertidas sessões coletivas de arroto pela mata.


Antes de partir para a aventura, cheque o visual da garotada. Nada de túnicas com cores sóbrias e sem vida. Vista os pequenos com trajes confortáveis – e que não piniquem! - e de cores berrantes, que auxiliam a identificação a longa distância em possíveis resgates aéreos. Nada de tênis ou sandalinhas. Nem crocs. Tênis permitem escorregões, sandálias deixam aranhas entrar e crocs dão um chulé apocalíptico. Botinhas são as melhores opções: evitam torções, protegem as unhinhas encravadas e ficam uma beleza quando enterradas na lama.
Bonés também são importantes. Enterre um na cabeça no seu filhote.
Por fim, besunte as crianças com filtro solar fator 60. Para que o efeito seja satisfatório, passe duas “demão”, elevando o fator de proteção para 120. Seus filhos ficarão levemente esbranquiçados, mas quase impermeáveis. Passe da cabeça aos pés, inclusive nos cabelos e axilas.


Mas qual a idade mínima para levar uma criança para a trilha? Especialistas de todo o planeta divergem neste quesito. Use critérios igualmente científicos para definir isso: se seu filhote já anda e se alimenta sozinho, não tem nenhuma doença que possa infectar os demais trilheiros, e consegue carregar sua mochilinha, está na hora!


Podemos levar brinquedos? Não precisa, já que animais peçonhentos, monstros devoradores de trilheiros e enxames de insetos são diversão garantida nas trilhas. Apenas leve brinquedos se seu filhote fizer muito mimimi.


E se acontecer algum acidente na trilha?
Primeira coisa: mantenha a calma e não chore na frente das crianças. Elas, geralmente, têm pouca paciência nesses casos. Segundo: use o kit de primeiros socorros, acione o resgate de profissionais e, se você ainda estiver desesperado, recorra aos dardos de tranquilizante. Em hipótese nenhuma, entre em pânico. No meio da confusão, você pode até perder as crianças na floresta...


Trilhas não são sinônimos de estresse, medo, contusões ou desaparecimentos coletivos. Também não rimam com insolação, afogamentos e desarranjo intestinal. Trilhas podem ser inesquecíveis experiências familiares. Campeonatos de peidos, cantorias desafinadas e puxões de cabelo podem ser bem divertidos se você seguir estes nossos conselhos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Na trilha da Lagoinha do Leste (again) e Morro da Coroa


Para fazer a trilha mais conhecida da Ilha você não precisa procurar muito. Dê um Google e aparecem mais de 33 mil resultados. Por isso, não vamos perder tempo dando indicações. Mais importante é contar como foi a aventura do último sábado, quando cerca de vinte amigos percorreram mais uma vez o caminho do paraíso.
Contrariando as expectativas, os comandantes do Fazendo Trilhas – Joel e Ana – não puderam liderar a trupe, pois estavam se aventurando em outras coordenadas. Contrariando a razão, topamos ser liderados pelo Tom Floripa: um perigo, é verdade, mas estávamos sem fazer nada em casa...
A proposta era fazer um mutirão de limpeza pelo caminho, retirando toneladas de resíduos sólidos deixados por contumazes porcalhões. Mas o que se viu ao longo do dia é que a missão fracassou: não houve coleta porque contrariando (de novo esse verbo? Não tem outro não?), porque surpreendendo a todos (ah! Ficou melhor agora!), surpreendendo a todos a trilha estava muito limpa. Daí que foi pro saco o propósito de falar de consciência ambiental como motivador do espírito de aventura. Falemos de outros temas: joelho, por exemplo.

Concentrado logo cedo na frente da Igreja da Armação, o grupo partiu para a Praia do Matadeiro, onde no final há o início da trilha propriamente dita. Dia de sol radiante, de ar levemente abafado, mas céu limpo. Na noite anterior, um dilúvio caiu sobre a cidade. No Facebook, alguns tentaram convencer que não seria uma boa fazermos o percurso (afinal, era o Tom Floripa que iria nos guiar...). Além do que poderia ter muita lama e condições acidentadas no trajeto, ou quedas de barreiras e sequóias, ou ainda a infestação de monstros devoradores de trilheiros... Nada disso! O dia estava perfeito para fazer atividade física, ter contato com a natureza e conviver com amigos. Duro é convencer os joelhos da gente...

A trilha da Lagoinha do Leste é um destino de paisagens estonteantes e vistas espetaculares. O caminhante vai recortando os morros, observando as encostas e se animando com os visuais que se descortinam a sua frente. Os passos são firmes, decididos até que, para desviar de uma árvore, você bate com o joelho esquerdo numa rocha. Neste instante, o sol mergulha no mar, a escuridão invade seus olhos e você enxerga... estrelas! Por um segundo interminável você imagina o estrago feito: ossos esmigalhados, cartilagem rompida e nervos dilacerados. No segundo seguinte, ainda sem coragem de abrir os olhos, você contabiliza o prejuízo: putz! O tendão patelar foi pro saco! Nossa! Cadê o meu menisco? Meeeeuuu! É isso o que sobrou de meus ligamentos? Mais um segundo e você já imagina o que acontecerá: vão tentar imobilizar a sua perna, pelo celular chamarão o helicóptero de resgate, haverá comoção no grupo, corre-corre no setor de emergência e manchetes nos jornais do dia seguinte. Que nada! Você é um aventureiro, um desbravador, um trilheiro, quase um super-herói. Você respira, engole o choro e ri amarelo para o colega ao lado que está com os olhos esbugalhados. Com o rosto parecendo uma uva passa, você ordena: “Vai na frente que eu quero fazer um xixizinho...”

Nada é melhor do que uma trilha para que a pessoa conheça o próprio corpo. Se você faz academia ou treinamento com os fuzileiros navais, saiba que isso é moleza. Se você é especialista em anatomia humana, numa trilha acaba descobrindo que não sabe nada. A trilha não é um programa de final de semana, não é um pretexto para a reunião de amigos, é um contato direto com o seu ser. (Ficou boa essa parte, hein? Vou evoluir um pouco mais...) Um contato direto com o seu corpo físico, com a consciência que tenta comandá-lo e com o espírito de determinação. Numa trilha, o organismo humano é submetido a rigorosos testes de fadiga, estresse e pressão social. Não bastasse a exaustão, tem as gracinhas que se ouve dos mais amigos quando você é o último a chegar ao destino se arrastando feito uma lagarto e com meio metro de língua pra fora...
Numa trilha, as paisagens paradisíacas servem como alento. Os sons dos pássaros e os perfumes locais despertam os sentidos, mas só você sabe quanto está cansado naquela subida íngreme ou desesperado ao passar rolando na descida. Mas, sabe, joelho é super importante...

Os joelhos compõem a principal articulação do corpo humano. Eles sustentam dezenas de quilos durante a vida toda de forma eficiente, e quando se queixam disso, você acha uma besteira. “Esse meu joelho não é de nada!” E você se esquece das muitas vezes que carregou a amada nos braços, sobrecarregando os SEUS amortecedores, dos momentos em que sustentava engradados de cerveja, pressionando as SUAS articulações.
Mas a Trilha da Lagoinha do Leste é a eleita por dez entre dez caminhantes não apenas pelo percurso. Tem a lagoinha propriamente dita - um recanto especialmente projetado para almas preguiçosas - , a larga faixa de areia na praia – convite a longas jornadas de sono -, e o mar – agitado, limpo, geladinho e irresistível. Tem ainda o Morro da Coroa, uma tentação para aventureiros incansáveis e espíritos indômitos.
É isso mesmo. Engatamos uma segunda marcha e desafiamos a gravidade novamente. Sim, eu sei, tem o joelho...

O Morro da Coroa assusta a quem olha pra cima. Não chega a ser um Kilimanjaro, mas a subida é íngreme, sem trilhas que permitam ziguezaguear até o alto. Tradução: tem que escalar, equilibrar-se entre pedras. Experientes, escolhemos o melhor horário para atacar o morro: meio-dia! O sol fritava os miolos de todos, curtia o couro dos pelados e esturricava o resto de razão que tínhamos preservado.
Como já dissemos, nada é melhor do que uma trilha para que a pessoa conheça o próprio corpo. Na escalada, você tem plena consciência corporal de ossos, músculos, nervos e articulações. Quando falta ar – quase sempre! -, você se lembra de que deveria ter comprado mais um pulmão naquela liquidação do mercado negro de órgãos. Você não mais sente o coração pulsar no peito, ele está em sua boca. A sua pressão arterial subiu até a estratosfera e você passa a enxergar pontos brilhantes do céu azul. A boca seca, você sua em bicas e pensamentos insanos assaltam a sua mente: apesar de tudo aquilo, você não quer parar, não pode parar e não vai parar até chegar.
Cientistas renomados das universidades de Boston e Merdon já efetuaram testes em trilheiros nessas condições e não souberam responder por que esses caras agem assim. Seus joelhos estão destroçados, mas a fibra permanece...

A escalada exige tempo. Determinação (ou teimosia) há de sobra. Cada trilheiro sobe conforme pode, importante é chegar, é desafiar limites pessoais. É vencer a si mesmo.
Assim, quando chegamos ao topo, ninguém contém o sorriso. Afinal, o mundo está a nossos pés...

O vento no rosto, o sobrevôo das aves muito próximo, o sol ao alcance da mão. No alto do morro, as rochas em forma de cunha estão encravadas no solo, formando uma bizarra coroa. Debaixo de algumas delas, descansamos por alguns minutos. Retomamos o fôlego. Lá de cima, a vista recebe todos os superlativos possíveis. Volúvel, o mar altera suas cores a cada centímetro observado. Sopra um vento morno e é preciso voltar.

Numa só palavra a subida é sofrida. Numa só palavra a descida é perigosa.
O escalador encaixa os pés nas fendas forçando uma espécie de degrau que permite equilibrar o corpo. Um passo por vez e a força da gravidade puxando pra baixo. Pedras soltas provocam ligeiros tombos. Nada grave. Escoriações. Mais do que a subida, a descida desafia os joelhos. O impacto nas articulações é maior. Toneladas sobre os ligamentos. Você respira e tenta ignorar os estralos que ouve a cada passo. Você apenas desce. Inspira-se no Atlântico, logo ali, piscando pra você... sacaninha... Depois de aportarmos na praia e beijar o solo, como João Paulo fazia, corremos para o mar. Água transparente, gelada, refrescante, limpa, esfuziante, espumante, sensacional. Um prêmio. Dá até vontade de beber...

Na água, com o corpo malemolente ao sabor das ondas, você faz como os jogadores de futebol após  uma batalha em campo: tratamento para relaxamento muscular. La-rá... vidinha mais ou menos...
Você lembra de como teve contato com a natureza: arranhou as pernas nos espinhos, levou galhadas no rosto, teve o vento nos cabelos, sentiu o perfume do mato molhado, o sol queimou sua pele, o mar refrescou sua pele, a pedra beijou seu joelho...
De lá, vamos pra lagoinha nos refrescar porque ninguém é de ferro... mais alguns banhos restauradores, regados a muitas gargalhadas, e afivelamos as mochilas novamente. Há a possibilidade de voltarmos pelo mar em embarcações contratadas. Mas que nada! Vamos mesmo pelo caminho que leva ao Pântano do Sul. É uma trilha, xará!
Mas e o joelho? Ora, pra que servem bolsas de gelo?

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Na trilha da Costa e do amigo

Trilha da Costa da Lagoa e amigo secreto com o Fazendo Trilhas!
Dia 17 de dezembro de 2011

Começamos a trilha lá no caminho dos Araçás
A trilha, que já tinhamos feito antes, continua estonteante. Sábado foi o dia perfeito, com um sol maravilhoso, poucas nuvens e muitas paisagens belas

Na entrada dos Araçás, nós e a natureza

Uma das muitas construções antigas da Costa da Lagoa

Flores nunca são demais

A vida difícil de um gato manezinho da Ilha

 
O verde

No restaurante Terramar, nos juntamos ao pessoal do Fazendo Trilhas pra comer um camarão, um peixinho e bater um papo

Chegou a hora do amigo secreto, e das surpresinhas que reservamos aos queridos coleguinhas..

 
A grande felizarda, na minha opinião, foi a Teresinha Tessaro, que levou para casa uma linda caneca personalizada do Luan Santana. Olha a cara de felicidade dela.

Mais um dia de interação com a natureza e nossos queridos amigos das trilhas. Queremos agradecer este ano especial ao Joel e à Ana, os "chefes" do Fazendo Trilhas, que com sua atenção e amizade estão sempre nos proporcionando momentos inesquecíveis. Um beijo e até 2012!

domingo, 18 de dezembro de 2011

Na trilha da Ponta do Rapa

Trilha da Ponta do Rapa, no  extremo norte de Floripa
Dia 4 de dezembro de 2011

 
Saída na Praia Brava, devidamente uniformizados

Vista da primeira parada. Ao fundo, a Praia Brava

 
Segunda parada, um lugar mais lindo que o outro

Hora do descanso e do lanche. E quem ficou esperto, comeu um chocolate...

 
Papai Joel  e seu bastão mágico

Acabamos a trilha na praia da Lagoinha, já escurecendo o dia. Viver nessa ilha é um privilégio, nós sabemos...

domingo, 21 de agosto de 2011

Na trilha de Naufragados (de novo!)

INÍCIO DA TRILHA: 14:30h

Engana-se quem pensa que basta fazer um percurso uma vez para se conhecer o caminho. Uma trilha reserva detalhes e mistérios que se revelam aos poucos. Refazer trechos é reviver a jornada. Por isso, a segunda vez que fizemos a Trilha de Naufragados - no sábado, 20 - não foi apenas um dèjá vu. Se antes nos aventuramos sozinhos, agora trouxemos um peso extra (veja na foto abaixo, roendo as unhas) e nos juntamos ao grupo do Fazendo Trilhas.


A Trilha de Naufragados é uma das mais antigas de Florianópolis. Na verdade, esses caminhos se confundem com a própria história da cidade. A localidade é cercada de lendas e relatos que datam do século 16, quando pelo menos dois grandes naufrágios aconteceram naquelas águas. Em 1516, uma das embarcações da esquadra de Juan Díaz de Solís veio a pique, mas alguns sobreviveram e se refugiaram na praia, junto com os índios carijós. Nove anos depois, o navio São Gabriel afundou por ali, o que reforçou a fama do lugar. Não à toa, passaram a chamar de Ponta dos Naufragados, o que não impediu que mais desastres acontecessem por ali nos séculos seguintes.

 
No extremo sul da Ilha de Santa Catarina, a ponta e a praia dos Naufragados mantêm-se isoladas na medida do possível. Não existe energia elétrica nas poucas casas e alguns costumes permanecem centenários. Para chegar até lá, deve-se ir até a Caieira da Barra do Sul e seguir por uma trilha íngreme no meio da mata. Um caminho agradável, mas que faz os caminhantes suarem e perderem o fôlego...

 
Quando os trilheiros estão prestes a desmaiar, param para tirar fotos (e serem atendidos pelos paramédicos de plantão).

 
Tem gente que não perde o ânimo e até faz dancinha de Smurfs...

Embora o caminho exija tônus muscular e bom preparo físico, o pequeno Vinicius não se queixa: está cercado de fãs... 

 
Desta vez, a trilha foi super-ultra-mega-giga-familiar. Foram amigos, filhos, pais e até a Aika, irriquieta mascote da Cacau Timm.

Diego, por sua vez, fez a trilha como quem faz promessa: colocou a camisa do time com devoção, rezando para um bom resultado no domingo. (Reze mais, Diego...)

Mas dizíamos que Naufragados é carregada de história. Para além de cemitério de navios, a localidade era estratégica para a defesa da Ilha. Em 1861, foi instalado um farol para orientar os navegantes e para reforçar o sistema de segurança da região. Próximo dali, surgiu o Forte Marechal Moura de Naufragados e o conjunto de canhões que até hoje estão apontados para o mar.

Do farol, tem-se uma das vistas mais sensacionais do sul de Florianópolis. Mas lá também é uma esquina dos muitos ventos que varrem a Ilha.

Na verdade, dizem que o Vento Sul mora por ali. Um vento que levanta a saia das moças, que remexe as folhas do quintal, que arrebenta a linha da pipa, que enverga as varas de pescar...

Um vento que traz más notícias, que sopra segredos, que carrega bons augúrios e que coloca os cabelos pra cima...

 O mirante do farol permite visões como a de cima...

... e ao lado dos canhões de 120 milímetros, construídos em 1893, pode-se ter essa vista. Ou esta mira...

 
O precário equilíbrio das pedras de hoje faz lembrar a fragilidade da Ilha de séculos atrás. O sistema de defesa não funcionou. Houve invasões, disputas aconteceram, e a Ilha foi se reconfigurando. Não tanto nos seus contornos, mas no seu interior.

Hoje, a Ilha de Santa Catarina tem 400 mil habitantes e sofre outras invasões: de turistas no veraneio; de quem busca qualidade de vida ao longo do ano inteiro.

A Ilha sofre novas invasões, e a Trilha de Naufragados continua sendo a única ligação terrestre entre a ponta que assistiu tantos barcos adernarem e os caminhos que partem do sul. Curiosamente, quase quinhentos anos depois, as pessoas continuam caminhando por ali e se afogando naquelas belezas naturais...

FINAL DA TRILHA: 18:30h

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Na trilha do Morro da Boa Vista


O trilhismo também tem seus clichês. Um deles é reforçar a ideia que toda caminhada dura leva a um destino recompensador. Assim, mesmo sob extremo cansaço, desidratado e prestes a desistir, o trilheiro renova suas energias e segue adiante. Após tanto sofrimento, ele terá direito a algo que realmente valha a pena. Pois esse clichê e outros tantos têm lá suas parcelas de verdade. A Trilha do Morro da Boa Vista é um exemplo.


Para trilhar esse caminho, siga para o sul da Ilha de Santa Catarina, na direção da Lagoa do Peri. Indo pela SC-406, contorne o Morro das Pedras e fique esperto, pois logo adiante à direita está a entrada do Parque Municipal da Lagoa do Peri. 


A lagoa em si já é um visual à parte: uma porção de água doce de tom caramelado e serena como a brisa. A moldura é a densa mata que se avista ao longe. Garças brancas e pássaros de outras cores dão rasantes na superfície imperturbável da lagoa, cuja água ajuda a abastecer as comunidades no sul da ilha. Pescadores se aventuram no canal da lagoa, profundo e com correnteza traiçoeira, e até mesmo um jacaré do papo amarelo mora por lá, reza uma das lendas locais.

Apesar dessa exuberância toda, o destino do domingo era outro, mais belo ainda e isso iríamos descobrir horas depois. O Morro da Boa Vista fica ao norte da Lagoa do Peri. Para ter acesso, há trilhas bem sinalizadas no início, como a da Pitangueira, com caminho amplo, na maior parte do tempo plano e cercado por árvores e relva. Por cerca de 40 minutos, o caminhante apenas passeia, podendo ouvir pássaros, ver plantas e flores, tendo um contato mais light com a natureza.

Mas a trilha do Morro da Boa Vista é de intensidade difícil devido às subidas íngremes e ao terreno local, muitíssimo prejudicado pelas chuvas da semana. Resultado: muito esforço pra subir, muita lama, escorregões e tropeções à vontade.

Para chegar à Boa Vista é necessário suar muito. O Dois na Trilha trouxe um terceiro elemento, de quase sete anos, o que trouxe também preocupações de tombos adicionais. O terceiro elemento não decepcionou por seu preparo físico e disposição, mas sempre é bom avisar: se você não tem um filho super-herói, não traga. Desta vez, tínhamos conosco o Hulk e Harry Potter.

O cume fica a cerca de 200 metros do nível do mar, o que pode gerar incredulidade do leitor: ora, só isso? E cansa tanto?! Sim, cansa. É a metade do que fizemos na Trilha da Pedra Branca, mas a intensidade das subidas e as muitas paradas que fizemos (para que as pessoas recolhessem as línguas que estavam sendo arrastadas pelo caminho) dobraram o cansaço.

Mas vamos lembrar do clichê: uma caminhada dura leva a um cenário recompensador. Por quase duas horas, os trilheiros não apenas evitaram os vexames dos tombos, mas também mantiveram o moral alto. Mesmo mortinhos de cansaço, mantiveram o bom humor e a criatividade. Um dos rapazes à frente da fila decidiu criar uma nova igreja, recheada de misticismo e machismo. “O lema é um só: a mulher que serve ao homem, serve a Deus!”, disse, convicto. A proposição ganhou rapidamente adeptos do sexo masculino, que passaram a seguir seu novo líder. Mas a igreja não durou cinco minutos: uma das trilheiras argumentou sagazmente que a seita teria apenas homens como fieis, e com isso, a igreja implodiu.
(a diagramadora optou por ilustrar o brilhante comentário com o flagrante de aranhas visualizadas pelo caminho)

Mesmo diante de tanta dificuldade para subir, outros trilheiros passaram a ter ideias mirabolantes. (Sim, o cérebro é severamente afetado nessas condições). Para vencer o morro íngreme, o pequeno Vinicius desenvolveu um modelo de propulsão a gás, o que permitiu que ele subisse alguns metros de forma bem ligeira. O sistema causou um efeito colateral: ninguém queria ficar atrás do menino. A brilhante ideia foi também abandonada no caminho.

Marcio, por sua vez, quis implementar uma nova metodologia de rolamento em pirambeiras. Chegou a fazer um primeiro teste, mas foi desaconselhado por sua esposa, Cris, temendo consequências mais graves ao ecossistema local. Na queda, Marcio abriu uma clareira próximo à pedra final do Morro da Boa Vista.

Mas o que leva pessoas em situação extrema ter ideias tão originais? A equipe de neurocientistas do Dois na Trilha explica: em momentos de tensão, medo e angústia, os seres humanos mobilizam seus sistemas de recompensa, estrategicamente localizados nos sistemas límbicos de seus cérebros. A pessoa estabelece uma meta pessoal e canaliza seus esforços para alcançá-la. À medida que vai se aproximando da conquista, renova energias (extrai essas energias não se sabe de onde!!!) e reprograma seu organismo para vencer limites. No caso dos trilheiros do domingo, o sistema límbico se encarregou não apenas de impulsionar os corpos cansados, mas também fez os cérebros extrapolarem suas capacidades habituais (ok, um dedinho de cachaça também pode ajudar).

O sistema de recompensa permitiu, inclusive, que algumas trilheiras enfrentassem um marimbondo (sim, um só!) apenas com seus gritos lancinantes. Acuadas pelo inseto letal, as caminhantes atuaram em grupo, de forma coordenada, e soltaram seus berros, desestabilizando o atacante. Apesar de seus muitos esforços, a equipe de entomologistas do Dois na Trilha não conseguiu localizar o corpo da vítima.

Após suarem barris, os trilheiros chegam ao ponto máximo de sua aventura: o cume do morro. A pedra é estreita e nem todos podem alcançá-la ao mesmo tempo. Dividimo-nos em grupos menores, que sobem alternadamente. Lá de cima, um visual extasiante, deslumbrante, emocionante, luxuriante. Pode-se enxergar a quilômetros de distância e quase que num raio de 270 graus. Vê-se boa parte do sul da Ilha, o Campeche, a ilha de mesmo nome, o Aeroporto Hercílio Luz, o bairro que o circunda, parte da praia do Morro das Pedras, e mais adiante as pontes que ligam a Ilha ao continente e um infinito Atlântico.

(foto: Fazendo Trilhas)
Vitoriosos, os trilheiros fazem um lanchinho, mas se alimentam mesmo é da paisagem única. Mirante inigualável, ponto de vista irrepetível. Temos sol e temos vento forte. Esse mesmo vento que sacode as madeixas das trilheiras massageia os rostos dos mais carrancudos e cansados, e provoca sorrisos e gargalhadas. Todos estão muito felizes, surpresos com a Boa Vista e maravilhados com o privilégio de lá terem chegado. Todos estão renovados. Que bom! Pois a descida não é tão fácil quanto se pensa, e os tombos nos esperam a cada passo displicente. Não tem problema. Agora, está renovado o objetivo também: chegar são e salvo lá embaixo para almoçar, mesmo depois das quatro da tarde, é tudo o que se quer. Retornar pra casa sãos e salvos - embora apertados no banco de trás do carro - também...

(foto: Fazendo Trilhas)

domingo, 17 de abril de 2011

Trilha Daniela e Carijós









INÍCIO DA TRILHA - 9H

Partimos de Jurerê Internacional em direção à Praia de Daniela. E de lá contornamos a Estação Ecológica dos Carijós, seguindo pela faixa de areia até o Pontal da Daniela. Da praia ao pontal foi sensacional! Ana comemorou a vista deslumbrante com Raquel.

Nosso líder Joel também ficou empolgado. O grupo era grande, cerca de trinta empolgados trilheiros. Por isso, não se fez de rogado e conclamou a todos para a descida do morro.

O percurso foi beeeeemmm tranquilo. Tanto que deu pra tirar fotos do cenário, dos casais, da fauna local...

No caminho para a ponta da Daniela, o sol resolveu aparecer. Caminhamos até o fim da praia, seguindo o mangue e o caminho do mar. A água estava calma demais, praticamente estática.

Neste momento da trilha, chegamos ao ponto onde podíamos ver o forte de Anhatomirim bem de pertinho. Com um pouco mais de vontade, mais fôlego e menos idade, dava até pra chegar nadando à ilhazinha...

Ilha linda vista de longe, minúscula e maravilhosa. O grupo do Fazendo Trilhas parou para registrar todos os ângulos possíveis dessa vista privilegiada. No caminho, muita gente recolhendo lixo deixado na praia por visitantes pouco educados.

 
A areia do ponto final do mangue fica assim, marcada na sua pequena extensão, toda trançada. Sentamos pra descansar na areia e logo percebemos que a maré subia rapidamente. E o sol foi nos deixando cada vez mais torrados.

Mangue da Reserva Ecológica dos Carijós, lugar onde reina a Sirilândia (nessa altura, a barriga começou a roncar) 

Lá do outro lado é Sambaqui. Voltamos perto das 3 da tarde, rumo ao PF mais próximo!! 

O almoço foi na Daniela, acompanhado de uma galera super animada. Fisicamente, a trilha não exigiu muito de nós. Afinal, quando cruzamos morros por aí com o pessoal do Fazendo Trilhas, já esperamos enfrentar serpentes mitológicas ou dar de cara com um pé-grande no caminho - tem que ter emoção! No fim das contas, o que vale mesmo é a companhia sde um pessoal que sabe aproveitar as boas coisas da vida.