Contam os antigos que a Pedra Branca sempre foi considerada um ponto de orientação para viajantes e povos nômades. Desde os tempos mais remotos, a formação que se ergue a 460 metros de altitude funcionou como uma bússola, mostrando que o mar estava próximo e, com ele, mais fácil a sobrevivência. O pico do morro também serviria para avistamentos de OVNIs e pousos não frequentes de espaçonaves interplanetárias.
Tá certo, tá certo, essa é apenas mais uma lenda sobre o lugar.
Cientistas estimam que o Morro da Pedra Branca tenha cerca de 120 milhões de anos. Com predomínio de rochas calcáreas, o maciço é abraçado por vegetação de Mata Atlântica, notadamente orquídeas e bromélias. Paleontólogos já encontraram vestígios de fósseis animais, e algumas gigantes do petróleo disputam o terreno de olho no potencial dos recursos naturais.
Ok, ok. Isso também não é toda a verdade.
Mas descontando a ficção-nossa-de-cada-dia, a verdade mesmo é que o Morro da Pedra Branca é cercado por muitas histórias e é repleto de riquezas.
Para o Dois na Trilha, esta foi a primeira aventura trekker fora da Ilha de Santa Catarina. O Morro da Pedra Branca fica no município de São José, perto da divisa com a cidade de Palhoça, e em plena região metropolitana de Florianópolis. Apesar da proximidade, o local mantém características rurais, serenas e bucólicas. Para lá chegar, deixamos a capital catarinense pela BR-101 na direção de Porto Alegre (sentido sul). Poucos quilômetros depois, seguimos pela entrada para São Pedro de Alcântara, rumo à Colônia Santana, o hospital psiquiátrico da região.
Santana é o bairro que ajudou a batizar o hospital, mas não se resume a isso. Tem comércio local, igreja (foto), movimento de cidade do interior e uma comunidade com gente calma e hospitaleira. Deixamos os veículos em frente à Colônia Santana, e alguns dos trilheiros se sentiram tentados a rever velhos conhecidos, mas estávamos com alguma pressa. (Havia também o receio de que os visitantes ficassem retidos por lá...)
O grupo de bravos trilheiros estava desfalcado: a impagável e insubstituível Raquel desmarcou sua ida na última hora. Informações extra-oficiais davam conta de que tinha compromissos internacionais. Relatos não confirmados disseram que Raquel se assustou com o “tamanho da coisa”, isto é, com a altitude a ser alcançada na aventura. Diante das versões desencontradas, o Dois na Trilha se limitou a lamentar a ausência da trilheira, tentando compensar o grupo com a vinda do pequeno Vinicius, inexperiente no esporte mas mestre Jedi em videogames.
(foto: willians amâncio)
O grupo de 35 trilheiros caminhou pelo Sertão do Maruim (que já foi chamada de Imaruí) e enfrentou de início uma subida daquelas. A rua com calçamento simples e ladeada de casas de madeira é íngreme, e sua largura é compartilhada entre carros, motos e pessoas. A subida assusta, mas ela só é o começo da aventura. Imprópria para cardíacos, precisamos advertir.
A trilha do Morro da Pedra Branca é um dos caminhos mais conhecidos na grande Florianópolis, e o percurso que fizemos foi de 11 km, ida e volta, segundo informou Joel, nosso guia trilhístico. A aventura pode ser considerada de intensidade “difícil”, já que alterna trechos relativamente planos (como o da foto acima) com outros com muita ingrimidade. Nada que exija escaladas, mas se você fuma, vai sofrer com a falta de fôlego. Se não fuma, também vai penar (não se atreva a dar esse risinho besta).
Há recantos mágicos, com água límpida correndo e silvos de pássaros. Há também por boa parte do começo da trilha aquele característico odor de dejetos sólidos bovinos, que naturalmente adubam o solo local...
Existem os carrapichos selvagens e implacáveis da região, que se prendem aos cabelos dos caminhantes (foto), e que fazem o seu papel na natureza: ajudam a espalhar sementes. Entre os perigos locais, os trilheiros se deparam também com os mosquitos, chupadores contumazes do sangue alheio. Aliás, esses pequenos e insaciáveis insetos são míticos na Pedra Branca. O nome da região - Sertão do Maruim - leva o nome de uma dessas invencíveis espécies. E isso é verdade,
pode checar.
(foto: Paulo Casali)
Apesar dos ataques aéreos, das picadas traiçoeiras e de quase botarmos os bofes pra fora, a trilha é agradável. O ponto alto é o ataque ao cume. (Grande novidade dizer que o ponto alto é o alto do morro).
A vista não é só deslumbrante, mas cheia de nuances. De cima da Pedra Branca pode-se ver a cidade de Palhoça, parte de São José - inclusive a avenida Beira-Mar - e um pedaço de Florianópolis.
Como o morro fica muito perto do Aeroclube de Santa Catarina, os céus dali são frequentemente preenchidos com monomotores e planadores (foto abaixo); e como fica na direção do Aeroporto Hercílio Luz, aviões de carreira e jatos da Base Aérea passam por lá. Casais apaixonados de urubus pegam carona em "térmicas" e desfilam despreocupados.
(foto: willians amâncio)
Os trilheiros tiveram sorte desta vez. Não havia vento forte, e o sol insistia em aparecer diante de tantas nuvens. Sentar à pedra, conversar e assistir ao tempo passar traz uma sensação de paz indescritível...
Fazer um lanche tendo a proteção de um super-herói por perto também não tem preço...
(foto: willians amâncio)
Joel aproveita a ocasião e leva sua Ana às alturas... no registro, parece que ele está colocando um anel no dedo dela, mas é mera ilusão, provocada pela altitude. Na verdade, ele não precisa desses expedientes para demonstrar o seu amor... (som de violinos de fundo, por favor).
A trilha do Morro da Pedra Branca é uma aventura marcante. A rocha imponente - que de perto nem é tão branca assim... - se ergue a quilômetros, mostrando-se para todos. É um colosso que intimida, mas não é impossível vencê-lo. Chegar ao seu topo traz uma sensação vitoriosa. Fotografar o feito é obrigatório e irresistível, primeiro passo para o caminho de volta.